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Amor, mar e pilar

2018-05-29T18:36:52+00:00
Dias atrás chegamos a Santiago de Compostela, na Espanha, depois dos quase 140km de estrada. Nos bosques, montanhas, ruazinhas de povoados e nas grandes cidades, o olhar estava sempre atento: as setas amarelas eram o guia. 

 

Às vezes óbvias, às vezes quase ocultas, eram elas que nos instigavam a ir adiante, a não parar e a olhar para trás apenas para contemplar com os olhos o que o corpo já sentia: já havíamos andado muito!

 

E entre algumas dores, cores e sabores, a mochila pesava nas costas. O hidratante corporal, uma cueca e algo de que já nem lembro mais se tornaram metáfora dos pesos desnecessários que carregamos na vida.

 

É que sempre carregamos algo. Mas nem tudo precisa pesar. As lições mais preciosas tornam a vida mais leve, ainda que aumentem as responsabilidades. 

 

Meu Mestre planejou a vida pra ser leve. Ele a viveu (e vive) assim. Ele não me impõe peso. Ao contrário, me ensina a caminhar com os pés no presente, lembrando-me do passado mas considerando a eternidade.

 

Estou enchendo minha mochila com lições preciosas que tenho aprendido com meu Pai (que também é meu Mestre).

 

Esses dias o pilar do prédio em que estamos hospedados se tornou pedagógico.

 

Um pilar sustenta a casa. Sem ele, o que se construiria? Entretanto, apesar da sua função indispensável, não nos lembramos disso toda hora. O pilar está ali com sua força e firmeza, cumprindo seu papel de sustentar tudo, e passa desapercebido. É natural. E é pra ser assim. Colocamos o foco nele apenas quando algo não está bem.

 

E na minha mochila está entrando essa lição: depender do meu Pai deve ser como esse pilar. Meu Pai é quem me sustenta! Depender dele não é apenas concordar que tudo vem dEle, e sim viver assim. Ele é a fonte de todo suprimento emocional, espiritual, financeiro, psicológico, e assim por diante. Ainda que ele se valha de diferentes torneiras, ele é a fonte e o dono de todo o encanamento.

 

Esse entendimento ainda não estava completo em mim. Por isso, nessa última viagem à Espanha ele me disse para abandonar as torneiras e focar na fonte. Eu esperava mais das torneiras que do dono delas. O pilar estava rachado. Nós não construiríamos nada assim.

 

Então vieram dias de confiar e duvidar, descansar e me agitar, e aos poucos (bem lentamente) entender de verdade que não importa o que eu faça, o poder de suprir, a responsabilidade de cuidar e o desejo de não deixar faltar são características do meu Pai. Não preciso me desgastar ao confiar em mim mesmo para ter o que preciso. Posso descansar no fato de que viver na dependência de Deus é possível. 

 

E como isso acontece? Como aprender a deixar isso o mais natural possível? É preciso encontrar um pouco mais de espaço na mochila para compreender que todo pilar precisa de um bom fundamento para ser estabelecido. E nesse caso, a dependência de Deus está firmada no amor dele. Ele me ama mais do que posso medir ou entender. É um mar de amor! Amplo e profundo, cheio de belezas e riquezas. 

 

Por isso cuida tanto e tão bem de mim. Por esse motivo posso depender dele. Um pilar firmado no mar. Parece contraditório firmar o sólido no líquido. E é. Mas apenas na minha visão. Na perspectiva eterna do meu Mestre é possível fechar as torneiras quando mais se precisa de água. 

 

É isso que tenho aprendido. E a aula não terminou. Tem muito caminho pela frente. Tem muita seta amarela para seguir. Mas enquanto isso, ele renova as forças das pernas cansadas, trata as bolhas e me mostra mais quem Ele é, quem eu sou e como posso viver.

  
André Nascimento

Sobre mim

Sou poeta, escritor e músico: artista-pássaro que busca levar beleza e verdade, poetizando a vida que Deus sempre quis. Atuo, canto e escrevo contos, crônicas, poesias e artigos.

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