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Corre que a visita vem aí

2018-03-04T18:59:03+00:00

É sábado à tarde, e isso significa tranquilidade. Todo mundo acordou tarde, o gostinho de café ainda está na boca. Almoço só Deus sabe que hora vai sair. Mas quem liga, né?

– Ah, qualquer coisa come um lanche – é a sentença da mãe.

Seria perfeito se tudo continuasse do jeito que está. Cada filho nos seus afazeres (leia-se celular), pai e mãe assistindo a qualquer coisa inútil na tv, o carro de pamonha passando na rua.

Mas não. O telefone toca! Ninguém se move, claro. Quase vencida pela preguiça, a mãe – “tudo eu nessa casa!” – atende.

– Alô!?

Era a tia Lola.

– Ah, então… é que eu estava pensando em dar uma passadinha aí pra ver os meninos. Estou pertinho daí…

A mãe cora. O coração foi à boca. Olha essa sala o jeito que está!

Tia Lola não era rica, não era implicante. Sua casa não era uma mansão, de jeito nenhum. Era até legal. Mas nessas condições, ela ganhou um título que põe terror nas tardes tranquilas de sábado: visita!

Num esforço pra manter o bom tom, a mãe se despede, desliga o telefone, trêmula tadinha.

E começa o tropé!

– Menino, tira esse brinquedo daí! Já falei!

– Vem você aí e vai varrendo essa sala, menina.

– Vamos abrir essa casa, pelo amor de Deus!

– Que foi, mãe?

– Vem visita!

Logo o cheirinho de bolo e café invade tudo.

– Pelo amor de Deus levanta desse sofá, amor. Será possível?

Alguém cochicha no canto da cozinha:

– A mãe fica neurótica quando vem gente em casa.

– É, mas pelo menos tem bolo hoje!

– Vão ficar aí conversando e me deixando fazer tudo sozinha? Mas será o Benedito…

E assim se passam os próximos dez minutos, com tamanho de um dia inteiro, pesados, corridos. Tem que ficar tudo lindo. O que a visita vai pensar?

E tira pó da tv, tira as propagandas de supermercado do chão da garagem, tira grampo de dentro do sofá, põe sabonete na pia do banheiro e, pasmem, até deu banho na menina menor e fez os maiores colocarem roupa de sair. Em 10 minutos!

Todo mundo sentadinho na sala, cena de novela. Cadê a tia Lola que não chega nunca? O bolo vai esfriar, meu Deus.

E o telefone toca de novo.

– Não vai dar? Como assim lembrou de outro compromisso?

O rosto da mãe… que rosto era aquele? Quase se descontrolava…

– Ah, vai dar sim! Mas vai dar mesmo! Você acha que é fácil… – nisso os olhos de todos já se arregalavam, levantando-se do sofá com um sonoro “mããããe!”, como quem vai segurar alguém que está caindo. E ela meio que volta ao controle emocional.

– Tudo bem, Lola. Fica pra próxima então. Beijo!

Se uma mosca voasse a três quarteirões de distância todo mundo ouviria. E o teto parecia que ia cair de tanta tensão naquela sala.

– Todo mundo pra mesa – rompeu a mãe, seca – O bolo vai esfriar.

Sentaram-se todos, em clima de exército. A mãe serviu os pedaços do bolo quentinho, um pedaço dos grandes pra cada um. Não era bolo que queriam?

E a pequena soltou:

– Oba! Bolo! Amanhã vai ter visita de novo?

Todos se entreolharam, olharam pra mãe… E caíram na gargalhada!

Mas se a tia Lola aparecesse ali…

 

André Nascimento

 

 

Sobre mim

Sou poeta, escritor e músico: artista-pássaro que busca levar beleza e verdade, poetizando a vida que Deus sempre quis. Atuo, canto e escrevo contos, crônicas, poesias e artigos.

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