Loading...

Sol

2018-03-04T19:02:30+00:00

As lágrimas continuam a brotar. Elas vêm de uma fonte interna que ninguém consegue ver. E brotam, fluem, atravessam a alma como um grande rio que ninguém pode parar. Luto.

O ontem foi escuro, o hoje é trevas e o amanhã… O amanhã sussurra que não existe.

O turbulento rio da vida levou uma preciosidade, arrancou-a das minhas mãos e, no meu cérebro desnorteado, cravou uma lista de perguntas que não sei responder. Por isso choro. Apenas choro.

Ah, se essas nuvens negras e enormes fossem embora! Se me carregassem de volta ao passado, quando ainda havia vida. Ao contrário, o céu inteiro chove sobre a minha cabeça, misturando lágrimas, chuva e luto.

Chove. Choro. Luto.

Luto para tentar entender que não existem respostas suficientes para tirar a dor. Mas por quê?

Luto comigo, pensando o que eu poderia ter feito diferente. Sei que não tenho culpa! Sei que acreditar que tenho não vai aliviar o sofrimento. E luto.

Luto para ter esperança e imaginar o céu se abrindo em um novo dia.

Mas não há guerreiro indestrutível. Canso de lutar. E choro.

“Não há problema em chorar” – me diz. O braço que sempre esteve perto, o olhar meigo, algumas boas recordações e cicatrizes em comum. Já não choro só. É melhor chorar junto.

No conforto do abraço continuamos olhando o céu golpeados pelo forte vento. Já existem menos nuvens e ao fundo do horizonte quase negro – como pode ser? – um pequeno raio de luz amarela parece querer brilhar. Ele me chama! Me quer por perto, mas está tão longe.  Me quer mostrar a luz mas ainda vejo apenas escuridão.

E choro. Choramos até as lágrimas desacompanharem os soluços. O corpo sente a dor da alma.

No vazio, me permito olhar além mais uma vez. Meus olhos embaçados quase não me permitem ver: o raio de sol aumentou. Apenas um pouco. E parece continuar me atraindo a caminhar em sua direção.

Os pés são bolas de metal pesado que, como ímã, não consegue resistir. Ao corpo frágil só lhe resta obedecer ao poder da atração daquele tão pequeno facho de luz.

Caminho. Um passo. Mais choro. Outro passo. Choro mais.

Assim me dou conta de que as trevas no céu vão perdendo espaço para o começo do que pode ser um grande espetáculo amarelo, vermelho e laranja. Um novo cenário que é orquestrado pela luz do dono do sol, o Criador. O escritor da fé, o doador da esperança.

Mas ainda não cheguei lá. Não posso desistir porque agora percebo que ao meu lado e atrás de mim várias outras pessoas também caminham. Sangram, agonizam, lamentam. Mas caminham.

Olhamos para o sol, buscando transformar a dor em saudade e as lágrimas em boas lembranças. Minha pedra preciosa se foi, mas me deixou muitíssimas alegrias, diversos aprendizados e mudou a minha história pra melhor.

Eu olho o sol. Ainda não cheguei lá. Mas é para lá que estou caminhando.

André Nascimento

Sobre mim

Sou poeta, escritor e músico: artista-pássaro que busca levar beleza e verdade, poetizando a vida que Deus sempre quis. Atuo, canto e escrevo contos, crônicas, poesias e artigos.

Últimos textos